Hoje é difícil imaginar a arte contemporânea sem a serigrafia.

Ela está presente em museus, galerias, bienais e no trabalho de alguns dos maiores artistas do século XX. Mas nem sempre foi assim.

Durante muito tempo, a impressão em tela era considerada apenas uma técnica industrial, utilizada para produzir cartazes, placas, tecidos, embalagens e publicidade.

Então surge uma pergunta curiosa:

Qual foi a primeira serigrafia artística da história?

A resposta nos leva à Nova York da década de 1930, durante um dos períodos mais difíceis da economia mundial.

A serigrafia nasceu na indústria

Embora seus princípios sejam muito antigos — com antecedentes na China e no Japão, onde estênceis eram utilizados para decorar tecidos há muitos séculos —, a serigrafia moderna só começou a tomar forma no início do século XX.

Estencil japonês – Século XIX

Em 1907, o inglês Samuel Simon registrou uma patente utilizando uma tela de seda tensionada como matriz de impressão. Nas décadas seguintes, a técnica foi rapidamente adotada pela indústria devido à sua versatilidade e baixo custo.

Naquela época, ninguém imaginava que ela pudesse ocupar um lugar entre as belas-artes.

Era apenas um processo eficiente de impressão.

A Grande Depressão mudou tudo

Em 1929, a quebra da Bolsa de Nova York mergulhou os Estados Unidos em uma profunda crise econômica.

Como parte do programa conhecido como New Deal, o governo criou, em 1935, o Works Progress Administration (WPA), uma iniciativa destinada a gerar empregos em diversas áreas, inclusive para artistas.

Dentro do Federal Art Project, centenas de pintores, gravadores, ilustradores e designers passaram a receber salário para produzir arte pública, cartazes, murais e material gráfico.

Foi nesse ambiente que a história da serigrafia artística começou.

Anthony Velonis: o homem que enxergou arte onde todos viam indústria

Anthony Velonis – Federal Art Project

Um dos artistas do programa chamava-se Anthony Velonis.

Ele já conhecia a impressão em tela utilizada comercialmente e percebeu que aquela técnica possuía um enorme potencial artístico.

Velonis começou a adaptar materiais, experimentar tintas, desenvolver métodos de impressão e, principalmente, ensinar outros artistas a utilizar o processo.

Em 1937, publicou o manual Technique of the Silk Screen Process, distribuído para diversos centros de arte dos Estados Unidos. O pequeno livro ajudou a padronizar procedimentos e foi decisivo para difundir a técnica entre artistas.

Mais do que um grande impressor, Velonis foi um professor.

Anthony Velonis – Serigrafia 1939

Sua maior contribuição talvez não tenha sido produzir obras, mas criar uma geração inteira de artistas capazes de transformar a impressão em tela em uma linguagem artística.

E a primeira serigrafia?

É aqui que a história fica ainda mais interessante.

Entre os artistas que trabalhavam ao lado de Velonis estava Elizabeth Olds.

Pintora, ilustradora e gravadora, Olds já possuía experiência com litografia quando passou a experimentar a impressão em tela.

Archives of American Ar Elizabeth Olds

Segundo o historiador Carl Zigrosser, então curador do Philadelphia Museum of Art e uma das principais autoridades em gravura da época, The Concert, de Elizabeth Olds, foi a primeira serigrafia produzida pelo recém-criado Silk Screen Project do WPA. Décadas depois, essa informação continuou sendo reproduzida por pesquisadores da história da serigrafia.

Concert, 1938, Smithsonian American Art Museum Elizabeth Olds

Hoje, exemplares de The Concert pertencem ao acervo do Metropolitan Museum of Art, embora o museu catalogue a obra dentro do período de produção do WPA (1935–1943), sem indicar um ano exato para a impressão.

Uma mulher no início dessa história

É curioso perceber que uma das primeiras obras da serigrafia artística tenha sido criada por uma mulher.

Elizabeth Olds foi uma artista extremamente inovadora para seu tempo.

Muito antes de se dedicar à serigrafia, tornou-se, em 1927, a primeira mulher a receber uma bolsa da Fundação Guggenheim.

Sua produção abordava trabalhadores, fábricas, músicos, manifestações populares e o cotidiano urbano, temas pouco comuns para artistas mulheres naquele período.

Ao lado de Anthony Velonis, Harry Gottlieb, Hyman Warsager e outros integrantes do Federal Art Project, ajudou a construir aquilo que hoje reconhecemos como a origem da serigrafia artística.

Quando surgiu a palavra “serigrafia”?

Outro problema enfrentado por esse grupo era o preconceito.

Como a impressão em tela era vista como um processo comercial, muitos artistas recusavam-se a expor essas obras em galerias.

Foi então que surgiu o termo serigraph.

A nova palavra foi criada para diferenciar a produção artística da impressão industrial. Ela combina o latim seri (seda) com o grego graphein (escrever ou desenhar), reforçando que aquela técnica também poderia produzir arte original.

Poucos anos depois, em 1940, foi fundada a National Serigraph Society, organização que promoveu exposições, cursos e publicações dedicadas exclusivamente à nova linguagem artística.

Latas de Sopa Campbell- Andy Warhol

O caminho até a Pop Art

Durante as décadas de 1940 e 1950, diversos artistas passaram a explorar a serigrafia como meio de expressão.

Mas foi apenas nos anos 1960 que ela conquistou definitivamente seu lugar na história da arte.

Artistas como Andy Warhol, Robert Rauschenberg, Roy Lichtenstein e Jasper Johns perceberam que a serigrafia possuía exatamente as características que definiam a cultura visual da época: repetição, reprodução, fotografia, publicidade e produção em série.

M-Maybe, 1965 (RLCR 1109) | Catalogue entry | Roy Lichtenstein

Com eles, a técnica deixou de ser apenas um meio de impressão.

Transformou-se em linguagem.

A mesma técnica que décadas antes imprimia cartazes comerciais passou a ocupar museus e a produzir algumas das imagens mais conhecidas da arte do século XX.

O verdadeiro nascimento da serigrafia artística

Talvez seja impossível apontar uma única obra como “a primeira serigrafia artística” sem qualquer contestação.

A história raramente é tão simples.

Mas existe um consenso bastante sólido de que foi o grupo reunido em torno do Federal Art Project, liderado tecnicamente por Anthony Velonis e artisticamente impulsionado por nomes como Elizabeth Olds, que transformou uma técnica industrial em uma linguagem artística.

E talvez esse seja o aspecto mais fascinante dessa história.

A serigrafia não nasceu como arte.

Ela tornou-se arte porque um grupo de artistas acreditou que uma técnica utilizada para imprimir cartazes também poderia produzir obras capazes de emocionar, provocar e permanecer na história.

Quase um século depois, basta entrar em qualquer grande museu para perceber que eles estavam certos.