A gravura sempre foi uma técnica de registro. Ao longo da história, artistas utilizaram matrizes de madeira, metal, pedra e linóleo para preservar imagens e multiplicar ideias. Mas o que acontece quando a própria cidade se torna a matriz? E quando aquilo que é impresso não representa um objeto, mas registra sua última presença?

É justamente nessa fronteira que se encontra o trabalho do artista André Maciel.

Para André, esse tronco não é apenas um resíduo. É uma matriz.

Em vez de produzir uma gravura sobre uma árvore, ele imprime a própria árvore. O artista entinta a superfície exposta do tronco e transfere sua textura diretamente para o papel por meio da monotipia. Os anéis de crescimento, as fissuras, os veios e as marcas do tempo aparecem exatamente como estavam gravados na madeira.

Cada impressão é única porque cada árvore também foi única.

Vídeo do projeto – https://www.instagram.com/reel/DT-R3PBkeTm/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==

O gesto é simples, mas profundamente simbólico. A impressão acontece quando a árvore já não está mais ali. O que normalmente seria apenas o vestígio de uma remoção transforma-se em um documento material de sua existência.

Não se trata de nostalgia ou de uma tentativa de reconstruir o que foi perdido.

O trabalho afirma algo muito mais silencioso:

Aqui existiu uma árvore.

Essa frase parece resumir toda a potência da série. A gravura deixa de ser apenas uma imagem para tornar-se um testemunho. O papel passa a carregar uma marca física produzida pela própria árvore, preservando aquilo que o tempo e a cidade inevitavelmente apagam.

Há ainda outro elemento que amplia o sentido da obra. Após realizar a impressão, André registra a localização exata daquele tronco e incorpora suas coordenadas ao trabalho. Assim, cada gravura mantém um vínculo inseparável com o lugar onde a árvore viveu.

A obra passa a existir entre dois espaços: o papel e a cidade.

Quem observa a impressão não vê apenas uma composição abstrata de círculos e linhas. Vê um organismo que ocupou um ponto específico da paisagem urbana durante décadas. Cada anel registra um ciclo de crescimento; cada fissura conta uma história que não pode mais ser observada em sua forma original.

Esse procedimento desloca nossa compreensão da gravura. Tradicionalmente, o artista cria uma matriz para produzir uma imagem. Aqui, a matriz já existe. Foi construída lentamente pela natureza, ao longo de muitos anos. André apenas reconhece seu potencial gráfico e lhe oferece uma última possibilidade de deixar sua marca.

Existe também uma delicadeza ética nesse processo. O projeto não transforma a árvore em objeto decorativo nem romantiza sua perda. Ao contrário, cria um espaço de atenção. Convida o observador a perceber aquilo que normalmente desaparece sem deixar memória.

Em uma cidade marcada pelo movimento constante, onde a paisagem muda diariamente, essas impressões funcionam como pequenas pausas. Elas nos lembram que cada árvore ocupou um lugar, produziu sombra, abrigou pássaros, alterou o clima e fez parte da vida cotidiana antes de desaparecer.

A gravura, nesse contexto, torna-se um instrumento de memória.

Não uma memória grandiosa, construída por monumentos, mas uma memória discreta, feita de tinta, papel e presença. Uma memória que não tenta devolver a árvore ao seu lugar, mas impede que ela desapareça completamente.

No fim, o trabalho de André Maciel nos faz perceber que imprimir também pode ser um ato de preservação. Cada monotipia registra um encontro irrepetível entre papel e madeira, transformando um toco esquecido em documento, paisagem e poesia.

Porque, antes daquela impressão existir, ali existiu uma árvore.