Serigrafia é gravura? É uma pergunta que costuma aparecer em cursos, ateliês e rodas de conversa entre artistas, nas universidades. Afinal, a serigrafia pode ser considerada uma técnica de gravura ou ela pertence apenas ao universo das artes gráficas? A resposta parece simples, mas envolve uma discussão que acompanha a história da arte há décadas. Gravuras do artista da Balaclava – Fabrício Fautin @fabriciofaustin Por que existe essa dúvida? Grande parte da confusão nasce da própria popularização da serigrafia. Enquanto técnicas como a xilogravura, a gravura em metal e a litografia permaneceram fortemente associadas ao universo artístico, a serigrafia ganhou enorme espaço na indústria. Ela passou a ser utilizada para imprimir camisetas, cartazes, placas, embalagens, adesivos, painéis, sinalização e inúmeros produtos do cotidiano. Com isso, muita gente passou a enxergá-la apenas como um processo “industrial” de impressão, e não como uma linguagem artística. Gravura Albrecht Dürer Afinal, o que é gravura? Antes de responder à pergunta que dá título a este artigo, talvez seja necessário voltar um passo. O que, afinal, define uma gravura? Se olharmos para a história da arte até o final do século XVIII, a resposta parecia bastante simples. A gravura estava diretamente associada ao ato de gravar uma matriz. Em outras palavras, criar uma imagem permanente em uma superfície para que ela pudesse ser transferida, por meio da impressão, para um suporte como o papel. Na xilogravura, essa gravação acontecia pela retirada da madeira. Na gravura em metal, por meio da incisão direta ou da ação dos ácidos sobre a chapa. Independentemente da técnica, havia um elemento em comum: a imagem era inscrita fisicamente na matriz. Durante séculos, essa foi a compreensão predominante da gravura. Mas essa definição começaria a ser colocada em xeque no final do século XVIII. Alois_Senefelder_Portrait- – Inventor da Litogravura / Litografia A litografia mudou tudo Em 1796, o dramaturgo e inventor alemão Alois Senefelder desenvolveu um processo que transformaria para sempre a história da impressão: a litografia. A novidade era surpreendente. Pela primeira vez, uma técnica de impressão artística dispensava completamente o entalhe da matriz. Na litografia, a pedra permanece praticamente plana. O artista desenha sobre sua superfície com um material gorduroso e, após um tratamento químico, cria-se uma diferença entre áreas que recebem tinta e áreas que recebem água. Durante a impressão, essa diferença físico-química faz com que a imagem seja transferida para o papel. Não existem sulcos. Não existe relevo. Não existe madeira retirada. Não existe metal corroído. A matriz continua praticamente intacta. E foi justamente aí que surgiu o primeiro grande questionamento sobre o conceito de gravura. Se a litografia não grava a matriz por incisão, por que ela sempre foi considerada uma gravura? A resposta está na própria evolução do conceito. Com a chegada da litografia, tornou-se evidente que gravura não poderia mais ser definida apenas pelo ato de entalhar uma superfície. O que realmente unia as diferentes técnicas era algo mais profundo: a existência de uma matriz preparada para armazenar uma imagem e transferi-la por meio da impressão. Foi uma verdadeira mudança de paradigma. A partir desse momento, a essência da gravura deixou de estar exclusivamente na forma como a matriz era marcada e passou a incluir o próprio processo de construção da matriz, da impressão e da multiplicidade. É por isso que técnicas tão diferentes como a xilogravura, a gravura em metal e a litografia passaram a coexistir naturalmente dentro do mesmo campo da gravura. Cada uma registra a imagem de uma maneira distinta. Na madeira, o registro acontece pelo relevo. No metal, pelos sulcos. Na pedra litográfica, por diferenças físico-químicas entre gordura e água. O princípio técnico muda. Mas a lógica da gravura permanece a mesma: preparar uma matriz capaz de transferir uma imagem para outro suporte. Essa mudança de perspectiva é fundamental para compreender todas as discussões que surgiriam nos séculos seguintes, especialmente quando novas técnicas, como a serigrafia, passaram a questionar novamente os limites da gravura. Gravação de Tela Serigráfica Mas a serigrafia não “grava” uma matriz… Esse talvez seja o principal argumento utilizado por quem não considera a serigrafia uma técnica de gravura e olha que não poucas pessoas. Na xilogravura, o artista remove a madeira. Na gravura em metal, a chapa é riscada ou corroída por ácidos. Na litografia, a imagem é registrada na pedra por meio de um processo físico-químico. Já na serigrafia, a matriz é uma tela cuja malha recebe uma emulsão fotossensível. A imagem é registrada por meio da luz, que endurece determinadas áreas da emulsão enquanto mantém outras permeáveis à tinta. É justamente aqui que surge uma questão interessante. No universo da serigrafia, é muito comum ouvir expressões como “gravar a tela” e “revelar a tela”. Embora os dois termos sejam utilizados no dia a dia dos ateliês, eles destacam momentos diferentes do mesmo processo. Quando falamos em gravar a tela, estamos nos referindo ao registro permanente da imagem na matriz. Já revelar a tela descreve a etapa em que as áreas não endurecidas da emulsão são removidas com água, tornando visíveis as partes por onde a tinta passará. Em outras palavras, a imagem não é obtida por um entalhe, mas também não deixa de ser registrada na matriz. A diferença está na natureza dessa gravação. Enquanto a xilogravura modifica a madeira e a água-forte corrói o metal, a serigrafia altera a permeabilidade da tela por meio de um processo fotoquímico. Assim como aconteceu com a litografia no final do século XVIII, a discussão deixa de ser como a matriz é gravada e passa a ser se existe uma matriz preparada para transferir uma imagem ao papel. É justamente essa mudança de perspectiva que alimenta o debate até hoje. O peso da indústria Talvez a maior responsável por essa dúvida seja justamente a versatilidade da serigrafia. Poucas técnicas conseguem imprimir sobre tantos materiais diferentes. Papel, tecido, madeira, vidro, metal, plástico, cerâmica e inúmeras outras superfícies podem receber uma impressão serigráfica. Essa facilidade fez com que a técnica fosse amplamente adotada pela indústria gráfica. Mas isso não diminui seu valor artístico. Afinal, a litografia também nasceu como um processo comercial. A xilogravura ilustrou jornais durante séculos. A gravura em metal foi utilizada para reproduzir mapas, livros científicos e imagens religiosas muito antes de ocupar museus e galerias. O uso comercial nunca impediu que essas técnicas fossem reconhecidas como gravura. Por que seria diferente com a serigrafia? Gravura produzida pela Galeria de Gravura O que dizem os museus e as bienais? Se observarmos o circuito internacional da gravura, a resposta é praticamente unânime. Museus, bienais, ateliês de impressão e universidades tratam a serigrafia como técnica da gravura contemporânea. Ela participa de exposições dedicadas à gravura, integra acervos especializados e faz parte da formação de artistas em escolas de arte ao redor do mundo. Ou seja, do ponto de vista institucional e histórico, não há uma separação entre serigrafia e gravura. Talvez estejamos fazendo a pergunta errada Existe, porém, um detalhe interessante. Em português, usamos a palavra “gravura” tanto para designar uma linguagem artística quanto para o ato físico de gravar uma matriz. Essa coincidência pode gerar confusão. Na xilogravura, gravamos a madeira. Na água-forte, gravamos o metal. Na serigrafia, construímos uma matriz por outros métodos. Se entendermos “gravar” apenas como entalhar ou corroer uma superfície, a serigrafia realmente parece uma exceção junto com a litogravura. Mas a história da gravura nunca foi definida apenas pelo gesto técnico. Ela sempre foi definida pela existência de uma matriz e pela possibilidade de produzir múltiplos. André Maciel – Gravando árvores Uma visão contemporânea da gravura Nos últimos anos, muitos pesquisadores passaram a defender que a gravura não deve ser compreendida apenas como um conjunto de técnicas, mas como uma maneira de pensar a imagem. É lógico que também existe uma corrente estudiosa contrária a essa ideia e acredita que serigrafia não é gravura por não ter o processo de gravação tradicional. Mas nesse contexto, conceitos como matriz, transferência, repetição, edição, variação, inversão e impressão tornam-se mais importantes do que o material utilizado. A gravura deixa de ser apenas um processo técnico para se tornar uma linguagem. Sob essa perspectiva, a serigrafia talvez seja uma das técnicas que melhor representa a gravura contemporânea e que melhor represente a não gravura. Sua capacidade de imprimir sobre diferentes suportes, trabalhar em camadas, criar múltiplos e explorar a repetição amplia as possibilidades da linguagem e aproxima a técnica das discussões mais atuais sobre arte impressa. Então, serigrafia é gravura? Se olharmos para a história da arte, para o ensino da gravura, para os museus e para a produção artística contemporânea, a resposta é sim. A serigrafia é gravura. Ela possui uma matriz, permite a produção de múltiplos, faz parte da tradição da impressão artística e ocupa um lugar consolidado no universo da gravura. Talvez a verdadeira questão não seja se a serigrafia é ou não gravura. A pergunta mais interessante seja outra: O que realmente define uma gravura? A resposta talvez diga muito mais sobre a evolução da arte do que sobre a própria serigrafia.