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Um movimento silencioso e transgressor ganha as ruas e os prédios de uma grande metrópole. É o Pixo. É Arte.

Falo das marcas no tecido da cidade, da escrita da presença, da voz da periferia, do grito mudo de parte da sociedade que é ocultada e marginalizada pelos poderes instituídos e pela grande mídia ‘careta’ e preconceituosa. Falo do Pixo. Arte viva e revolucionária. Falo do Pixo, da Pixo Arte, o anúncio, a notícia, a ‘letra’ dos excluídos.

Pixo Arte, da favela, da quebrada, da aventura, da madrugada. Pixo, genuína Arte, do Cão Fila, do Filhote, do Sem Mundo, Pixo! Arte!

A História da Pixo Arte. Estilos e artistas.

A Arte Pixo, frequentemente desqualificada e adjetivada pejorativamente por parte da mídia e dos poderes instituídos, conquista o tecido da grande São Paulo, cidade dos milhões.

O grande público pouco sabe a respeito desta manifestação de Arte e de sua potência conceitual. Bombardeada por informações no mínimo equivocadas tem se posto em curso a desqualificação de um movimento de Arte a ‘céu aberto’ que toma a cidade que se converte em um grande livro aberto no qual suas páginas, os muros, becos e prédios, são marcados com a escrita da presença. Pixo é Arte. Gesto de uma periferia ocultada, de artistas de vanguarda, questionadores, subversivos, que ousam romper o silêncio apenas aparente da madrugada e pronunciar sua ‘letra’, sua marca, sua indignação e crítica, sua aventura na paulicéia desvairada.

Na cidade de São Paulo a pichação em paredes, muros, pontes, viadutos e etc., surge no período da ditadura, na década de 1960. Naquele período as manifestações tinham caráter prioritariamente político sendo conhecidas expressões de ordem como, por exemplo, ‘Abaixo a Ditadura! ’, ‘Fora Ditadura! ’, ‘Anistia para todos! ’, ‘Punição aos torturadores! ’ ‘Viva a Liberdade! ’, dentre outras. Não havia ainda uma preocupação estética com as letras. Era ainda uma estética de sentido ‘legível’, apropriada para o público alfabetizado. Em seguida surgiram pichações poéticas, que como o próprio nome diz, tratavam-se de pichações de poesias, recados amorosos e etc., ainda formulada com signos do alfabeto, portanto direcionada para o público alfabetizado para que fossem ‘lidas’ e que pudessem ter seu sentido compartilhado.

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No início da década de 1980 sob influência do movimento punk de conteúdo político e de capas de discos de Heavy Metal, Hardcore e de bandas de Rock, como por exemplo, o Iron Maden, surgiu a pichação de São Paulo como a conhecemos atualmente, provocadora e questionadora com forte presença da individualidade e ‘letra’ do artista pichador.

O precursor foi o ‘Cão Fila’ que de fato não era um pichador como é conhecido atualmente. Seus pixos eram na verdade anúncios; ‘Cão Fila Km 26’, era um pixo que visava divulgar a venda de cão da raça fila no km 26, mas que ficou presente nas gerações posteriores de artistas pichadores.

Em 1982, mais precisamente, com pixos de Juneca, Bilão e Pessoinha, inspirados no Cão Fila, o movimento de pichação de contestação amplia-se em direção a todos os cantos, becos e paredes da cidade. Estes artistas começaram por seus bairros e em seguida passaram a pixar em todos os locais chegando ao auge entre 1986-87, aproximadamente, quando a força policial mobilizada pela prefeitura de São Paulo, então sob a administração de Jânio Quadros, passou a caça-los porque estavam pichando toda a cidade.

Em fins da década de 1980 e nos primeiros anos da década de 1990, os prédios passaram a virar alvo da pichação. Os precursores da modalidade de “Escalada”, termo que refere-se aos pixo feitos em prédios, são, reconhecidamente por parte da atual geração da Pixo Arte, o chamado ‘Trio de ferro’, Di, Thentho e Xuim. Foram eles os pioneiros da escalda pelos arranha-céus de São Paulo, que fizeram uma disputa saudável e franca, para saber quem pichava mais. Pichavam cada vez mais alto, nos prédios, e em locais desconhecidos, no ‘baixo’, nos becos e lugares obscuros de São Paulo. Dentre os três, “Di”, foi quem deu continuidade a pichação em prédios e é considerado por vários artistas do pixo como o maior artista pichador da história de São Paulo. Além de realizar seu pixo em muitos prédios ele pichou também vários locais da cidade. Foi ‘Di’, quem teve a audácia de pixar o prédio do Conjunto Nacional, que era cobiçado por todos os pichadores e logo após de tê-lo pichado ligou para um jornal passando-se por um morador indignado e a matéria foi veiculada como se ele fosse um morador reclamante, quando de fato, ele mesmo havia acabado de pichar o prédio. Di foi assassinado em 1997, aos 22 anos, de causa não relacionada à sua ação com o pixo, deixando grande número de fãs e admiradores de sua Arte.

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Pixo Arte a criação de um estilo.

 Nas linhas anteriores tratei da História da Arte Pixo; do seu início no período repressivo da ditadura militar da década de 1960 até o período das ‘escaladas’ que marcou a cidade de São Paulo na década de 1990.

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Como observado nos depoimentos de artistas do Pixo o período que marcou uma mudança conceitual e de estilo ocorreu na década de 1980. Até então, os artistas utilizavam os símbolos da gramática formal. Eram mensagens para serem lidas, porém a partir da década de 1980, sob a influência do movimento Punk de conteúdo político e de capas de discos de Heavy Metal e de bandas de Rock ocorre uma mudança crucial no pixo feito em São Paulo. Tanto pelo posicionamento de crítica a sociedade, que tende ao radicalismo subversivo que potencializa e apresenta a voz da periferia no contexto da cidade, quanto pela estética que passa a conter o caráter biográfico do artista que elabora sua ‘letra’, sua forma particular de comunicação, seu código.

Por sua vez, a ‘letra’, a forma elaborada pelo artista do pixo de São Paulo, cuja referencia foi o punk, o rock e as capas de discos, como o citado anteriormente, tem sua origem em uma cultura ainda mais antiga que são os povos germânicos e escrita rúnica. Os movimentos, Punk e Rock, na esteira dos movimentos de contestação do pós-guerra buscaram referencias nas ‘runas’, na antiga escrita dos povos germânicos da Escandinávia, Ilhas britânicas e Alemanha. Portanto, de uma forma de escrita anterior mesmo à codificação e normatização ocorrida no século XV com o desenvolvimento da tipografia criada por Gutenberg. O fato de a Pixo Arte ter suas origens nas runas, a escrita medieval dos povos germânicos da Europa e sua constante elaboração e criação feita por cada artista enfatiza e se opõem ao preconceito de que Pixo é ‘rabisco’ sem propósito, pelo contrário, é uma forma de Arte elaborada, intrincada, carregada de significados, altamente consciente e politizada.

È antropofagia cultural. O movimento da Pixo Arte absorveu e transformou a escrita rúnica, canibalizando os códigos medievais e elaborando e justapondo-a aos códigos de contestação da periferia. È importante observar o processo de migração e transformação que ocorrem com os códigos culturais de identificação, contestação, deslocando fronteiras de tempo e espaço, cultura e alteridade. A escrita dos povos tidos indevidamente como bárbaros, da Europa medieval, migrou para a cidade de São Paulo, para os povos ‘bárbaros’, barbarizados por parte da mídia e pelos poderes instituídos, que são os artistas pichadores.

Pixo Arte, um código de contestação.

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 A Pixo Arte possui características e elementos visuais que lhes são próprios e feitos para contestar os códigos de identificação da sociedade e desta forma sua inserção no tecido da cidade se dá de forma diferente dos códigos da comunicação visuais amplamente reconhecidos. Buscando o confronto com a mídia e suas estratégias de cooptação que levam a alienação e ao consumo irresponsável o Pixo é um ruído, um grito que ousa se interpor aos códigos alienantes da cidade. Pixo é uma Arte que apresenta a indiferença da sociedade frente a questões que deveriam ser a pauta de todos os políticos como, por exemplo, moradia, saneamento básico, combate a corrupção e etc.. Mais ainda, o Pixo é uma marca nas páginas da cidade. É a ‘letra’ da contestação, do combate à alienação. Ao assumir-se legitimamente entre faróis e cartazes da cidade o Pixo impõe sua presença contestadora e ao mesmo questiona os códigos da civilização, que dividem, segregam, excluem e marginalizam parte da sociedade em detrimento de parcela menor da mesma. Pixo é Arte, pela recriação de códigos e elaboração que parte da escrita rúnica, mas também por ser uma ação politizada que confronta e mostra as contradições da cidade.

O Pixo é um código de contestação que se impõe ao tecido da cidade concretizando e estandardizando a fala do outro, a presença do excluído, o grito do oprimido, a letra, a poesia, a imagem do artista.

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A Estética da Pixo Arte de São Paulo.

Na História da Arte a discussão a respeito do conceito de ‘belo’ tem sido frequente. Atrelado à academia Francesa tal conceito tendeu pela representação ideal de cenas religiosas, mitológicas e históricas no qual a exaltação do belo conforme o cânone grego esteve em vigor.

Recentemente Umberto Eco, (1932 – 2016), ousou estabelecer uma genealogia e História do belo na Arte e na comunicação visual ou designer e neste caminho tortuoso, referendado pela Arte desde a antiguidade, Eco chegou ao século XX, aos catálogos da Pirelli e aos ensaios sensuais de modelos para a indústria da moda e atrizes pornôs. Posteriormente o autor embrenhou-se em desafio ainda mais consistente que foi a obra ‘A História da Feiura’, chegando à constatação que na Arte do século XX a representação do ‘feio’ ganhou vulto e número expressivo, possivelmente em função das alterações ocorridas no campo da Arte com as vanguardas e os movimentos de ruptura dos últimos anos.

Após essa pequena introdução na qual tratei de maneira até certo ponto rápida a respeito do belo, na arte e na cultura, passo a tratar desta questão a partir da Arte Pixo. Que Pixo é Arte já podemos constatar afirmativamente, mas a Arte Pixo seria ‘bela’ ou ‘feia’? Que critério estético poderia ser adotado? Poderíamos levar em consideração o seu público que são as pessoas que frequentam as ruas de São Paulo, seja seus moradores ou viajantes? Possivelmente seria extenuante tratar aqui de questões de estética que abarcassem a Arte Pixo no contexto da Arte Contemporânea. Isso é tarefa para teóricos. Passo então a tratar dessa questão a partir da voz dos artistas, que criam a Pixo Arte.

O artista do Pixo, Rafael Augustaitz afirma que a pichação carregaria uma ‘máscara’. Segundo ele, muitas pessoas na cidade consideram ‘feio’ os Pixos que vêem, mas, continua o artista, seria uma questão de aprendizagem, de educação do olhar para que possa ser observado e apreendido seu contexto, seu potencial crítico. Dessa forma poderia ser visto o ‘belo’ na Arte Pixo.

Na Pixo Arte, o conceito de belo, deve ser estendido e ampliado porque deve abarcar a cidade que é seu suporte e neste movimento toda a complexidade que envolve uma grande metrópole, com suas contradições, entram em cena, ou melhor, são o cenário da Arte Pixo. Portanto a beleza da Arte Pixo está justamente em seu gesto, sua marca na cidade, que presentifica ausentes e reclama a mudança aos integrados a ela. É Arte pública, política, de vanguarda e contemporânea.

 

‘Escaladas’, um mergulho na cidade.

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Os artistas do pixo reconhecem três modalidades de pichação de acordo com os locais escolhidos que seriam a categoria de ‘Muros e Janelas’, ou no ‘baixo’, a de Prédios’ ou ‘Escalada’ e haveria outra categoria para aquele pichador que faz tudo; janela, muro, escalada. Como pode ser observado não há um termo especifico para cada categoria e sim a identificação do artista pichador de acordo com o lugar onde ele faz seus pixos. Recordando ainda, como salientam os artistas, o mais importante é ter bastante pixo, em suma, para o artista do pixo, seu respeito aumenta conforme a quantidade de pixos que ele faz na cidade.

Os artistas do pixo reconhecem três fatores que os levam a praticar o pixo que são; a diversão, a contestação e a adrenalina. Sobre a questão da contestação tratei anteriormente enfatizando a crítica aos poderes instituídos e outras falas repressoras e cerceadoras presentes no contexto da cidade. A respeito da diversão pode ser observado o fator de integração, amizade e parcerias entre os artistas pichadores que tornam o ato de pichar uma forma de relação social legitima que potencializa a identidade e o sentido de pertencimento. Sobre o fator da adrenalina pode ser observado que este elemento ganha destaque quando observamos a cidade pelo prisma da insegurança, violência, velocidade e simultaneidade que deslocam o sentido do indivíduo para um turbilhão de sensações e gestos nos quais a identidade é diluída.

Ao fator adrenalina a modalidade de ‘Escalada’ costuma ser a mais relacionada. É considerada pelos artistas o ‘top de linha’ da pichação, pelo risco que dela decorre. Como afirma Rafael Augustaitiz: “Não há como descrever o que ocorre. Apenas quem está além mesmo pode compreender qual é a ‘pegada’. É muita adrenalina.”

Escalar vários andares de um prédio pendurar-se em uma janela, em pontes, surfar sobre trens, são ações nas quais a adrenalina alcança limites formidáveis. O risco é vivenciado a cada segundo e não raro muitos pichadores tem histórias marcantes a contar. Muitos já caíram de prédios, tiveram fraturas ou presenciaram a morte de amigos durante escaladas. O prédio é o limite para o artista do pixo. Quanto mais alto, maior a adrenalina, maior o desafio, maior o risco. A escalada contribuiu para que a pichação de São Paulo alcançasse uma forma visual e estética que é única no mundo. Não existe nada no mundo que se assemelhe a Arte Pixo da cidade de São Paulo. Tanto que artistas estrangeiros que vem ao Brasil interessados no grafite ao verem o Pixo logo mudam de ideia e passam a pesquisar e realizar pixos, atraídos pela audácia dos artistas e pala escalada.

Neste sentido a cidade de São Paulo tornou-se um agente verticalizador das letras e da ação do artista, um campo aberto para a escalda. A pichação em São Paulo segue as linhas guias da cidade que é sua arquitetura. A cidade é convertida em um caderno gigante onde os pichadores atuam preenchendo esse espaço, escalando e marcando seus extremos, o baixo, o beco e o topo. Entre o céu e a terra em uma selva de concreto a Arte Pixo ocupa todos os espaços.

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