Ateliê

FOTOGRAFIA COMO MEIO: OS APARELHOS DE MARCIA XAVIER . LISETTE LAGNADO
Pensei num labirintos de labirintos, num sinuoso labirinto crescente que abarcasse o passado e o futuro e que envolvesse, de algum modo, os astros.
Jorge Luis Borges, “O Jardim de Veredas que se bifurcam”*
Não é fácil acompanhar a maneira como Marcia Xavier trabalha. A partir de ideias que surgem em profusão, os materiais encontram agrupamentos possíveis para logo trilhar direções paralelas – alguns investindo na prolongada busca de uma solução formal, outros dela regressando sem êxito. Terreno especulativo, no qual certas fotografias permanecem guardadas anos a fio até conquistar uma linha que determine seu destino. 
A descrição desse processo criativo não reflete uma confusão de desígnios. Ao contrário. Se pude testemunhar tantas circunvoluções, é porque em cada caso impunha-se uma decisão estética. De fato, uma das especificidades da fotografia consiste na sua dimensão temporal. Costuma-se explorar a imediatez de seus resultados, isto é a rapidez de uma técnica a serviço de efeitos visuais.  Um ranço de preconceito ronda esse tipo de comentário, solapando a característica mais fina do meio em questão.
Pois a fotografia não somente revolucionou nossa concepção de futuro, mas conferiu uma indispensável potência à memória. Sua vocação para o armazenamento, tornando-se arquivo em latência, permite que alteremos o sentido do prefixo “re”: é a renovada experiência da descoberta de um sentido subjacente quando se fala em releitura, quando o olhar revisita o passado para uma revisão. Em última instância, tendo mudado nossa atitude frente ao valor expressivo dos “retornos”, consequentemente a tradição deixa de figurar como ponto imutável. Há uma duração a ser, portanto, contabilizada nessa latência: colocar o autor permeável a sucessivas renúncias, diferindo o ato de concluir o trabalho para que seu conteúdo, uma vez em suspensão, possa encontrar, no tempo, a estrutura que melhor lhe convém.
Faz sentido então observar o percurso traçado por Marcia Xavier, que iniciara suas investigações com autorretratos. Nesse gênero, o si-mesmo apresentava-se como campo de ação mais próximo, podendo ser incansavelmente apreendido e moldado, livre do constrangimento de fatores externos como as autorizações públicas e condições climáticas. Veremos em que medida esse princípio de individuação repercutiu num raciocínio marcado pelas questões do duplo e da repetição, traduzidas simultaneamente em forma de fragmento e múltiplo.
Por ora, interessa pontuar que não havia, nessa auto-peregrinação, nenhum caráter biográfico. Marcia Xavier tratava a si mesma como objeto ou como lugar, nunca como sujeito. A imagem de um corpo desmembrado obedecia aos ditames formais absorvidos ao longo da história da arte [notadamente o Cubismo e a Optical Art].  Mas o que já sobressaía do processo era a vontade de “dar corpo ao corpo”, criar volumes para a representação fotográfica. “Vontade tridimensional”, formularia Waldemar Cordeiro, a referência certamente mais pulsante nessa exposição. Como em Ambiguidade [1962] ou em Luz semântica [1966], para citar apenas dois exemplos, os elementos imprescindíveis de Marcia Xavier são as superfícies espelhadas, os vicros corrugados, prismas e luz.
Desde sua instalação que colocava em movimento giratório a fotografia de uma criança engatinhando sobre um piso geometricamente quadriculado, Marcia vem procurando expressar o problema da passagem sem contudo abdicar da possibilidade de outorgar, mediante a construção de objetos, uma concretude ao fenômeno do deslocamento da imagem1. A partir deste trabalho, suas investigações deixaram de ser puramente fotográficas e ocupam o espaço ambiente. A escala foi transferida do corpo para a arquitetura, absorvida como medida necessária na dialética entre si-mesmo e mundo externo.
Caberia portanto compreender seus objetivos na esteira aberta pelos “Bólides”, de Hélio Oiticica. Há, de fato, uma nítida analogia sensorial entre Bólide Caixa 22, caixa dágua de concreto contento o poema “mergulho do corpo” [1967] e os atuais Aparelhos, de Marcia Xavier, constituídos de tonéis metálicos revestidos de espelho-alumínio. Ambos convidam à sensação virtual de olhar dentro de um abismo. Tirando partido da superfície reflexiva que se encontra na parte interna do cilindro, Marcia nos leva a experimentar a vertigem da multiplicação da imagem. Perde-se o sentido referencial de um centro, e a realidade passa a aser vista como se houvesse um caleidoscópio acoplado em nosso circuito retiniano.
Por fim, a escolha do vocabulário não poderia ser mais transparente, repartindo‑se em duas famílias de trabalhos: as escadas e os jogos. Há um fascínio inelutável pelas deformações. Este dado introduz variáveis na regularidade da sequência dos degraus, formando eixos que subvertem o sentido habitual de subida e descida da escada. As combinações cambiantes do caleidoscópio podem também ser encontradas na essência dos jogos. Seja sinuca, seja xadrez, cor e estrutura se furtam à tentativa de definição, fazendo com que o objeto ganhe uma força dinâmica conforme nossa sempre mutante posição face a ele. Curioso observar que o interesse de Marcia Xavier fixou-se em jogos de precisão, cuja movimentação depende de uma parceria. Embora regidos por um sistema de regras e cálculos, envolvem uma “percepção abstrata do mundo”, a indeterminação de lances que bifurcam.
* da versão em inglês, por James E. Irby, originalmente publicada na edição de primavera de 1958 do Michigan Alumnus Quartely Review.
1 Antarctica Artes com a Folha, Pavilhão Padre Manoel da Nóbrega, Parque Ibirapuera, São Paulo, 1996.

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