Desenhar é começar a trabalhar – Vânia Mignone

 

“Ergo castelos….”, “Ainda bem que estamos vivos”…, “Não volto”. Com essas expressões ou palavras somos convidados a entrar no universo da obra de Vânia Mignone. As composições, com letras dispostas sobre superfícies que podem ser colagens, pintura sobre colagem, com seus remendos e cruezas, combinadas a objetos, personagens que nada esclarecem sobre seu significado, remetem ao outdoor publicitário. Entretanto, Vânia nos propõe outro mundo, em que suas composições revelam-se como enigmas para o espectador. Estamos, quem sabe, diante do subtexto, das entrelinhas, ou da dimensão das nossas vidas que não é dita, nem necessariamente revelada, mas que está ali. Como no famoso romance de James Joyce, Ulysses , as obras da artista parecem nos colocar no lugar de Leopold Bloom e nas narrativas que se fazem do pensamento, de uma vida interior, enquanto o personagem se desloca por Dublin. Uma mistura de elementos da cidade, de referências cotidianas imbricadas em sutilezas e construções um pouco fantasiosas, que fazem emergir personagens de circo, animais, o ambiente da casa, cenas de filmes, e assim por diante.

Para criar esse repertório, Vânia foi buscar referências na dança, em sua primeira formação em publicidade, e no cinema. Antes de sua escolha pelas artes visuais, a artista foi, desde pequena, treinada na dança e logo se interessou pela dança contemporânea. Daqui, ela pode certamente tirar seu domínio do espaço, de pensá-lo como palco ou cenário. Antonio Gade e Pina Bausch são nomes que ela lembra, inclusive, ao falar justamente das cores, e da forma como expressão de uma dimensão subjetiva. Poderíamos falar numa evolução da obra de Vânia, no sentido da coreografia, uma vez que suas composições, em pequenos ou grandes formatos, não são preliminarmente esboçadas. Apesar de alguns dos grandes formatos de sua pintura, ela parte da superfície modular de uma placa de MDF, e à medida que a composição vai ganhando forma, a artista vai montando uma espécie de quebra-cabeças. O espaço de seu ateliê é pequeno, simples, com uma bancada na qual a artista trabalha desenhando e pintando sobre o MDF cru, um a um, para só depois juntá-los.

Ao iniciar-se como artista, sua primeira produção foi com a xilogravura em que Vânia viu a possibilidade de estender e explorar o desenho, e trabalhar com superfícies de cor. O desenho acadêmico, a prática da gravura, e as colagens e pinturas são, para ela, desdobramentos do exercício do desenho. Os traços do grafite, o caminhos das goivas da xilogravura, as emendas do MDF e os recortes das colagens parecem todos participar de seu entendimento sobre ele e sua relação inseparável da pintura. Nesse sentido, as cores cumprem um papel fundamental, por sua presença adensada em largas superfícies, seu aspecto material e cru, e sua dimensão sensível. Além disso, a artista nada esconde nem simula dos materiais que utiliza. Sua escolha pelo MDF, o uso de papéis já impressos de publicações de arte, por exemplo – em alguns momentos, ela arrancou páginas de monografias de grandes artistas de uma conhecida editora para realizar suas colagens – tem a ver com seu amor pelo rudimentar, por superfícies que guardam seus defeitos e erros. Há, assim, uma tensão entre aquilo que fica na composição final e o que foi apagado. Os materiais com os quais trabalha fazem também uma alusão ao cotidiano, os elementos da rua: a placa de MDF funciona, então, como a placa de sinalização de rua, os anúncios publicitários, os outdoors, etc. Materiais que seriam desperdiçados, jogados fora, são aqueles que a interessam, pois guardam essa tensão.

Como a composição para orquestra que nasce de seu autor sentado ao piano, assim é que surgem as obras de Vânia Mignone: dos elementos mínimos, vemos os diferentes naipes/nuances, as harmonias e fraseados melódicos, que constroem para nós composições inusitadas, que apelam para uma vida interior. Perguntada se considera que suas obras tem um caráter feminino, Vânia diz que sim, na medida em que falam diretamente à emoção das pessoas, e apesar (ou por conta) da crueza da composição, guardam certa delicadeza.

O nome de Vânia Mignone surgiu nas grandes exposições de arte contemporânea brasileira há precisamente 20 anos, quando participou de mostras coletivas como “Antártica Artes com a Folha” e nos editais do Centro Cultural São Paulo. Em 1999, foi uma das artistas escolhidas para o Panorama da Arte Brasileira do MAM SP, e em 2002, compôs a sala especial São Paulo para a 25ª. Bienal de São Paulo. Desde então, vem realizando exposições no Brasil e no exterior. O que propomos aqui é um panorama de seu trabalho ao longo de duas décadas.

Ana Magalhães
Curadora

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