A gravura expandida como conceito de ultrapassar o papel Durante muito tempo, a gravura como impressão foi associada principalmente à produção de cartazes, camisetas, edições de arte e impressões sobre papel. Mas, nas últimas décadas, artistas passaram a explorar a técnica de maneiras cada vez mais livres, fazendo com que a impressão deixasse de ser apenas uma imagem bidimensional para ocupar objetos, tecidos, paredes, instalações e até espaços arquitetônicos. É nesse contexto que surge o conceito de gravura expandida. Mais do que um movimento artístico, trata-se de uma forma de compreender a impressão como linguagem, e não apenas como técnica. Kamila Vasquez – Instalação Universidade Estadual de Santa Catarina (UDESC) O que é gravura expandida? O termo deriva da ideia da gravura não ser só uma impressão. Enquanto a gravura costuma estar associada à produção de múltiplos sobre papel, a gravura expandida rompe esses limites. A matriz, o processo de impressão e a repetição da imagem passam a fazer parte da própria obra. Na gravura, essa expansão acontece quando o artista utiliza a tela e a tinta para muito mais do que produzir uma edição. A impressão pode ocupar: paredes;pisos;vidros;tecidos;madeira;objetos tridimensionais;livros de artista;instalações;espaços urbanos. O suporte deixa de ser apenas um local onde a imagem aparece. Ele passa a participar da construção da obra. A impressão como processo Impresaão de gravura com rolo de grande dimensão – Luisa Almeida Talvez a principal mudança esteja na forma de pensar o trabalho. Na gravura tradicional, a impressão costuma representar a etapa final de um projeto. Na gravura expandida, ela passa a ser parte da pesquisa artística. O artista pode imprimir sucessivas camadas, apagar, sobrepor, repetir, deslocar a imagem, explorar transparências ou utilizar diferentes materiais para construir novas relações entre superfície, espaço e tempo. A impressão deixa de ser um fim e passa a ser um método de criação. Uma linguagem que dialoga com outras áreas A gravura expandida também aproxima a gravura de outros campos da arte. É comum encontrar trabalhos que estabelecem diálogo com: pintura;fotografia;desenho;escultura;arte têxtil;instalação;arte urbana;design gráfico. Essa mistura faz com que a impressão deixe de ser percebida apenas como uma técnica de reprodução e passe a atuar como elemento estrutural da obra. KAMILA VASQUES Alguns artistas que ampliaram as possibilidades da gravura Embora poucos artistas utilizem o termo “gravura expandida” para definir sua produção, diversos nomes desenvolveram pesquisas que dialogam diretamente com essa ideia. Carmela Gross, cuja produção frequentemente incorpora procedimentos gráficos em instalações e intervenções de grande escala. A pesquisa de Edith Derdyk aproxima desenho, repetição e processos gráficos, expandindo a compreensão da imagem impressa para além do papel. Entre artistas contemporâneos, Luisa Almeida trabalha principalmente com xilogravuras monumentais. Suas matrizes alcançam dimensões incompatíveis com prensas convencionais, levando a artista a desenvolver métodos alternativos de impressão. A artista Kamila Vasques investiga a gravura como um campo aberto de experimentação. Seu trabalho dialoga com desenho, pintura e instalação, explorando os processos gráficos para além da impressão tradicional. No cenário internacional, nomes como Robert Rauschenberg, Andy Warhol e Corita Kent demonstraram que a gravura poderia ser muito mais do que um meio de reprodução. Em suas mãos, ela tornou-se uma ferramenta para investigar a cultura visual, a fotografia, a tipografia, a pintura e a comunicação de massa. Luisa Almeida – Gravura contemporânea O futuro da gravura Hoje, agravura ocupa um lugar singular na arte contemporânea. Combinando processos analógicos e digitais, ela permite imprimir sobre praticamente qualquer superfície e dialogar com diferentes materiais e escalas. Essa versatilidade faz com que artistas continuem descobrindo novas formas de explorar a técnica. Mais do que produzir múltiplos, a gravura passou a construir experiências visuais. A tela deixou de ser apenas um instrumento de reprodução para se tornar uma ferramenta de investigação artística. Talvez essa seja a maior contribuição da gravura expandida: mostrar que imprimir não significa apenas transferir uma imagem para um suporte, mas criar novas possibilidades de ocupar o espaço, experimentar materiais e repensar a própria natureza da gravura. Festival Lambe Floripa – UDESC